Um poema para este sábado

By Luiz Valério sábado, 27 de fevereiro de 2010
Olá, meus @migos!

Hoje deixo vocês na companhia do mais polêmico poeta brasileiro de todos os tempos [na minha opinião]. Trata-se de Gregório de Matos, o "Boca do Inferno".


Aviso aos navegantes: qualquer semelhança do poema abaixo com a realidade pode ser merca coincidência. Ou não.

"Define a sua cidade

De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.

Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder."

Se você, caro leitor, não conhece o poeta baiano Gregório de Mattos, faço uma breve apresentação. Este grande poeta brasileiro talvez tenha sido pioneiro em usar seu talento com as palavras para denunciar a incompetência, a corrupção e a arrogância dos governantes da sua época. Gregório era oriundo de família rica. O pai era um conhecido e influente senhor de engenho na Bahia. O poeta estudou na Europa, onde se formou na Universidade de Coimbra e depois retornou ao Brasil. Seria ele apenas mais um representante bem sucedido da elite baina e brasileira da época. No entanto, recusou essa confortável condição de filho da elite. Era conhecido por não ter papas na língua e usar de palavrões e imagens pesadas em seus poemas. E, dessa forma, Gregório de Matos não livrou a cara de ninguém na Bahia do final do século XVII, desde membros da Igreja a figurões da política, ninguém passou incólume à sua verve poético-polemista. Por isso, ganhou a alcunha de "Boca do Inferno".
Luiz Valério

Sou Jornalista e blogueiro. Há 20 anos cubro o mundo político, boa parte desse tempo escrevendo em blogs na Web. Moro em Roraima há 15 anos. Já desenvolvi vários projetos na área do jornalismo. Apaixonado por tecnologia, tenho especialização na Área. Agora nos encontramos por aqui.

2 comentários to ''Um poema para este sábado"

ADD COMMENT
  1. De dois RR se compõe
    este Estado a meu olhar:
    um roubar, outro rapinar.

    ResponderExcluir
  2. Uma adaptação livre dos versos de Gregório de Matos que faz sentido. Mas, lembremos que este é um ano de eleição e que os eleitores-cidadãos podem mudar essa triste realidade.

    ResponderExcluir

Obrigado por comentar aqui no blog
Os comentários neste blog são livres, sem moderação.
Aviso, no entanto, que ofensas, palavrões ou quaisquer expressões racistas ou discriminatórias serão apagadas sumariamente.
Para quem comentar com responsabilidade, este espaço estará sempre aberto. Críticas e sugestões para o autor serão bem-vindas.

OBS: Os comentários dos leitores não refletem necessariamente a opinião do autor do blog.