Como e porque escolhi ser repórter político

By Luiz Valério domingo, 6 de março de 2011
Descobri que tinha uma visão crítica sobre questões políticas ainda durante o ensino médio, quando ajudei a criar e me tornei editor-repórter-colunista-editorialista-faz tudo do jornal da Escola de Segundo Grau Padre Murilo de Sá Barreto[i].

Já naquele tempo (1993-1994) não dava trégua para os desmandos políticos ou atitudes questionáveis dos detentores do poder. Era um período de greves de professores na escola e eu escrevi vários editoriais no “Jornal Básico Secundário”[ii].

Então comecei a criticar o prefeito Manoel Salviano Sobrinho (PSDB), hoje deputado federal, pela pouca valorização dada aos professores e pela sua política salarial decadente. Virei xodó dos docentes por ser simpático à sua causa. Acho que não foi à toa que virei professor também.

Depois de três números semanais seguidos, “baixando o pau no prefeito”, fui chamado na direção da escola pelo encabulado diretor Flávio Queiróz, que, cheio de dedos, me comunicou que as edições do JBS estavam suspensas, pois o prefeito Manoel Salviano, não estava gostando nada daquele aluno abelhudo que ousava criticar sua administração no informativo colegial. A verba ínfima que a escola destinava para a publicação do jornalzinho foi cortada.

Mas ali estava acesa a fagulha da minha formação como jornalista político. Havia descoberto minha vocação. Terminado o ensino médio, fui fazer curso de radialista, pois era um sonho de criança ser “o homem do rádio”. Fiz o curso. Meu começo de carreira não foi fácil, mas logo, com esse meu jeito petulante de fazer imprensa, comecei a ser visto e a conquistar espaço como repórter esportivo.

Um ano e meio depois eu já era repórter de política e cidades do Jornal do Cariri[iii], um jornal regional que abrangia 16 cidades do Vale do Cariri[iv] cearense. O JC era um projeto editorial regionalizado do Grupo O POVO de Comunicação, de Fortaleza. Um projeto ousado do empresário/jornalista Demócrito Rocha Dummar. Além de repórter do JC eu era correspondente do O POVO, uma que o jornal era do mesmo grupo.

E lá estava eu na equipe a pentelhar a vida dos prefeitos da região, principalmente de Juazeiro do Norte. Manoel Salviano (em seu segundo mandato à época), Mauro Sampaio e Carlos Cruz que o digam. Sampaio ainda se arvorou a ir ao jornal, pedir minha demissão ao diretor do diário. Não conseguiu.

Quando cheguei em Roraima, em 2002, e procurei me informar sobre os jornais daqui e conheci a Folha de Boa Vista, descobri que a coluna Parabólica era muito parecida com a Coluna Chapada[v], que eu escrevia no jornal do Cariri. Sua versão atual é a Política S/A, que mantenho no jornal Monte Roraima e no site Roraima em Foco.

Para os desavisados que pensam ou falam por aí que eu sou de esquerda ou que tenho alguma motivação pessoal contra figura políticas de Roraima, esse texto é uma forma de mostrar que eu sempre tive essa pegada como jornalista. Meu estilo de escrever sobre política vem de um período de antes de eu abraçar a carreira jornalística de forma profissional. Ser como sou é dar uma pequena contribuição para os que querem remar contra a maré nesse mar revolto de hipocrisia que é o mundo dos políticos.

No mundo político, o que vemos na superfície é apenas o simulacro do que se passa nos bastidores. Nem tudo o que é dito e feito corresponde à verdade do que é articulado na sombra refrigerada dos gabinetes. Por isso, escrevo como escrevo e digo o que digo.

Não tenho a intenção de agradar nem desagradar a quem quer que seja com os meus escritos. Faço pela simples convicção de que devo fazer. E ponto.


[i] Padre Murilo foi um dos grandes incentivadores das romarias de Juazeiro do Norte e meu amigo particular. Engraçado, depois de estudar na escola que levava seu nome, acabei por me tornar amigo de uma das figuras lendárias da Igreja Católica no Nordeste.

[ii] Nome um tanto contraditório, pois o que é básico não é secundário e vice-versa, mas que foi escolhido pelo então diretor da escola Flávio Queiroz, que depois se mostrou um notável professor de Literatura Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade Regional do Cariri (URCA). Um dos melhores que já tive na vida.

[iii]  O Jornal do Cariri teve a pretensão de desfazer o mito de que a minha região era um “cemitério de jornais”, pois cada folha criada nos municípios caririenses “morria” em muito pouco tempo. Depois de mudar de dono algumas vezes, o Jornal do Cariri ainda sobrevive mesmo à duras penas. Eu fui repórter do JC até 2001, antes de vir para Roraima em 2002.

[iv] Também existe o Vale do Cariri paraibano.

[v]  A coluna tinha o nome de Chapada por dois motivos: devido à sua “insanidade” de criticar os políticos locais – fazer isso no interior do Nordeste era quase pedir para morrer – e para homenagear a Chapada do Araripe, um platô geográfico que permite uma visão de todo vale até a fronteira com o Pernambuco. Lindo de viver e semelhante ao Monte Roraima, só que com menos altitude.
Luiz Valério

Sou Jornalista e blogueiro. Há 20 anos cubro o mundo político, boa parte desse tempo escrevendo em blogs na Web. Moro em Roraima há 15 anos. Já desenvolvi vários projetos na área do jornalismo. Apaixonado por tecnologia, tenho especialização na Área. Agora nos encontramos por aqui.

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