Dia Internacional da Mulher - uma reflexão incômoda

By Luiz Valério terça-feira, 8 de março de 2011

Estava conversando há pouco com uma pessoa que tem um intenso trabalho em prol das minorias e ela me fez um observação extremamente pertinente para a data de hoje, quando comemoramos o Dia Internacional da Mulher. Não que eu não tenha pensando nisso antes. Mas quando alguém nos chama a atenção para o mesmo tipo de raciocínio que temos, parece que a coisa passa a fazer ainda mais sentido.

Senta que lá vem a polêmica...

Eis a questão: é comum afirmarmos que a mulher está conseguindo espaço na sociedade, nos cargos executivos, nos parlamentos [neste ainda muito timidamente], no mercado de trabalho etc. Mas esse “ganhar espaço” é ainda muito elitizado, principalmente na política.

Senão vejamos. Geralmente, quem ocupa espaços no poder são mulheres ligadas a políticos tradicionais, que herdaram o espólio político dos seus pais e/ou maridos ou tiveram as condições necessárias para entrar na política pelas mãos destes. Parece machismo? Mas não é.

Quem foram e quem são as deputadas estaduais ou federais e senadoras de Roraima. Quem foram elas no passado? Nossa senadora mais aclamada hoje é Ângela Portela, mulher do ex-governador Flamarion Portela.

Sua carreira política decolou a partir da criação do Vale Alimentação e da sua atuação na Secretaria de Trabalho e Bem-Estar Social (Setrabes), quando ela era primeira-dama do estado. O programa estadual acabou por inspirar o Bolsa Família. Lógico que com seu tino para a política Ângela acabou criando uma identidade própria e tido obtido bons resultados.

Antes de Ângela Portela, quem era a senadora roraimense? Marluce Pinto. Na época mulher do então governador Ottomar Pinto, que era capaz de eleger até um asno por métodos muitas vezes questionáveis. Ainda da família Pinto experimentaram o gostinho do poder a ex-deputada Marília Pinto e a ex-prefeita de Rorainópolis, Otília Pinto.

Quem foi a deputada com maior número de votos das últimas eleições em Roraima? Teresa Surita, ex-Jucá. Quem iniciou Teresa na política? O todo poderoso líder do governo federal Romero Jucá. Todos lembram como foi o começo de vida pública da nossa ilustre deputada em Roraima com as bençãos de Jucá. Teresa foi prefeita de Boa Vista por três vezes, sempre ancorada no capital político de Romero Jucá.

Claro que depois de se revelar uma boa administradora, Teresa Surita alçou vôo solo e ganhou vida própria. Hoje sua liderança é inquestionável. Mas o começo foi exatamente da forma de descrevi. Hoje é a filha de Teresa, Luciana Surita que tem as bençãos de Jucá e ocupa espaços de poder. É sempre um clã que vai inserindo as mulheres no poder.

Na Assembleia Legislativa temos Auelina Medeiros, que também não deixa de ser uma cria de Ottomar Pinto. E a deputada debutante Ângela Águida Portela, que herdou o espólio político do pai e da mãe, que também foi deputada estadual. O ex-prefeito de Caracaraí e ex-deputado estadual Tião Portela não quis concorrer nas últimas eleições, alegando motivos pessoais, e acabou elegendo a sua filha que está buscando corresponder à altura.

Temos tantos outros exemplos, que citá-los todos deixaria este post imenso. Mas eu quis apenas mostrar que só alcançam espaço de destaque na vida pública com certa facilidade aquelas mulheres que já estão de certa forma nos espaços de poder, levadas pelos pais, maridos etc.

Não quero dizer com isso que a mulher não tenha condições de alcançar lugar de destaque sozinhas. Claro que tem. Mas para isso precisa que haja mais participação feminina. A mulher simples, as donas de casa, as professoras, médicas, jornalistas podem e devem buscar seu espaço por esforço próprio.

O que estou tentando evidenciar neste post é que as mulheres simples, de origem humilde, cujos pais foram anônimos e os maridos não passam de “zé ninguém” como tantos milhões de brasileiros não tem as mesmas oportunidades.

Onde estão as donas marias, josefas, franciscas, raimundas, etc., ect.? Porque a Nara Borracheira tenta, tenta, tenta e nunca se elege? E porque tantas outras mulheres simples que disputam as eleições e nunca “chegam lá”?

Por mais que você, leitor, leitora, queira ver neste post um traço de preconceito e machismo, peço que limpe olhos, se desprenda das paixões e reflita comigo. O que estou querendo mostrar é que mesmo a ascensão das mulheres tem um traço de elitismo.

Só chega com facilidade aos espaços de poder aquelas mulheres que, de certa forma, já estão inseridas nas estruturas de poder. Se você discorda, se manifeste.

Feliz dia Internacional da Mulher!
Luiz Valério

Sou Jornalista e blogueiro. Há 20 anos cubro o mundo político, boa parte desse tempo escrevendo em blogs na Web. Moro em Roraima há 15 anos. Já desenvolvi vários projetos na área do jornalismo. Apaixonado por tecnologia, tenho especialização na Área. Agora nos encontramos por aqui.

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